17 abril, 2010

Suplementos de Ervas: Pode?

Os suplementos dietéticos a base de ervas são vendidos como produtos "naturais, seguros, e eficazes" que conseguem reduzir a gordura corporal, aumentar o nível de testosterona sangüínea, aumentar a massa muscular, intensificar a energia, aumentar a força e a resistência, e melhorar a saúde e o desempenho atlético de modo geral. Entretanto, suplementos dietéticos à base de ervasesses suplementos e a propaganda que promovem seu uso não são, na maioria das vezes, regulamentados. Atletas e não atletas devem ser igualmente alertados quanto aos potenciais riscos do uso de suplementos à base de ervas e devem ser realistas quanto à possibilidade de elas aumentarem o desempenho no exercício.
Especialistas em nutrição esportiva falam de algumas questões importantes relacionadas ao uso de suplementos à base de ervas. Ellen Coleman, Ron Maughan, Suzanne Nelson-Steen e Rob Skinner, todos já trabalharam com atletas de elite e não-elite, ajudando-os com inúmeros problemas nutricionais. Além disso, realizaram pesquisas abrangentes e publicaram muitos livros e artigos sobre nutrição esportiva.

  • Ao comprar um suplemento à base de ervas em uma loja de varejo ou mesmo na internet, um atleta pode confiar que o rótulo do produto descreve exatamente o conteúdo do frasco?
  • Não necessariamente. Por exemplo, Gurley e colaboradores analisaram a quantidade de ephedra em 20 suplementos dietéticos à base de ervas e encontraram muitas discrepâncias com relação ao conteúdo. Um outro exemplo de como os atletas não podem confiar nos rótulos de suplementos dietéticos foi o que aconteceu em 2002, quando a Comissão Médica do Comitê Olímpico Internacional testou 634 suplementos nutricionais não-hormonais provenientes de 13 países diferentes e constatou que 94 (14,8%) continham substâncias que não haviam sido identificadas no rótulo e que poderiam resultar em teste antidoping positivo. Dessas 94 amostras, 23 continham substâncias que poderiam ser metabolizadas em nandrolona ou testosterona; 64 apresentavam substâncias que poderiam ser metabolizadas em testosterona e 7 continham precursores de nandrolona.

  • Quais são os suplementos de ervas "anabólicas" mais populares? Os esteróides encontrados nas plantas podem ser convertidos em testosterona nos seres humanos? Qual é a evidência de que algumas dessas ervas "construtoras de músculos" realmente propiciam a formação de músculo e aumentam a força? Há algum efeito colateral potencialmente prejudicial no uso desses suplementos?
  • As supostas ervas anabólicas mais populares incluem a ioimbina, o Smilax, o Tribulus Terrestris e gama-orizanol.
  • A ioimbina (extraída da casca da ioimbe ou de uma erva da América do Sul, o "quebracho") supostamente aumenta os níveis séricos de testosterona (provavelmente por meio do aumento do fluxo sangüíneo nos testículos), aumentando assim, o tamanho e a força do músculo. Não há nenhuma base científica para essas afirmações. Como a ioimbina pode aumentar a pressão arterial, pessoas com diabetes ou com problemas cardiovasculares, doenças hepáticas ou renais não devem usá-la. Além disso, vinho tinto, fígado e queijo devem ser rigorosamente evitados quando a ioimbina é usada, para evitar um aumento repentino e perigoso na pressão arterial. (Esses alimentos contêm o aminoácido tiramina, que pode causar a constrição dos vasos sangüíneos e aumentar a pressão arterial. O fígado normalmente inativa a tiramina, mas a ioimbina interfere nesse processo). Também foi documentado que a ioimbina pode causar outras reações adversas, incluindo paralisia dos nervos, fadiga, distúrbios gástricos e renais, crises e morte.
  • O Smilax (um gênero de plantas do deserto que inclui diversas espécies de salsaparrilha) supostamente aumenta os níveis séricos de testosterona e serve como uma alternativa legal aos esteróides anabólicos. O Smilax contém saponinas (sarsapogenina e esmilagenina) que atuam como blocos construtores para a produção de alguns esteróides em laboratório, mas essa conversão não ocorre no corpo humano. Não há nenhuma evidência de que o Smilax seja anabólico ou que atue como "substituto legal" para esteróides anabólicos. As saponinas do Smilax estimulam a diurese, a evacuação, o suor e a tosse, e qualquer um desses efeitos pode ser prejudicial ao desempenho esportivo.
  • O Tribulus terrestris (videira da punctura) teoricamente aumenta os níveis da testosterona indiretamente ao elevar a liberação do hormônio luteinizante pela hipófise, o que resulta na maior produção de testosterona pelos testículos. Entretanto, sobre a suplementação com Tribulus para levantadores de peso pesquisasnão mostraram nenhum efeito no peso corporal, na porcentagem de gordura, na massa muscular total ou na força do músculo. Quando ingerido em doses recomendadas, não houve associação com efeitos colaterais adversos em seres humanos. O gama-orizanol (um esterol vegetal derivado do óleo do farelo de arroz) supostamente aumenta os níveis séricos de testosterona e do hormônio do crescimento. Como acontece com outros esteróides vegetais, os melhores estudos não mostraram nenhum efeito anabólico após a suplementação com essa substância. Devido às características de absorção deficiente do orizanol (menos que 5% é geralmente absorvido pelo trato gastrintestinal), não há nenhum efeito adverso aparente.
  • Extratos de yams mexicanos selvagens da família Dioscorea são também suplementos "anabólicos" populares. Essas plantas contêm uma substância esteroidal chamada diosgenina, que pode ser convertida, por meio de uma série de reações químicas em um tubo de ensaio, em deidroepiandrosterona (DHEA), um hormônio anabólico que pode, por sua vez, ser convertido pelo corpo em outros esteróides, incluindo a testosterona e o estrogênio. Entretanto, essas reações que convertem a diosgenina em DHEA no laboratório não ocorrem no corpo humano! Os produtos que alegam que os yams selvagens podem resultar na formação de DHEA no corpo ou que podem aumentar os níveis de testosterona são um blefe total. Como os extratos de yam não são convertidos em DHEA pelo corpo, é improvável que haja efeitos colaterais adversos.
  • Temos que reconhecer que os esteróides anabólicos androgênicos são poderosos agentes farmacológicos. Estão sujeitos aos rígidos controles exercidos pelas agências que licenciam o uso de tais drogas. Todo produto à venda que teve um efeito anabólico significativo está sujeito a esses controles e o fato de que suplementos "anabólicos" à base de ervas não são controlados é uma indicação concreta de sua falta de efeito.

  • Há outras ervas usadas pelos atletas que apresentam propriedades ou problemas que lhes são particularmente intrigantes?
  • É comum muitos atletas pressuporem, de maneira incorreta, que os produtos à base de ervas são seguros e que não apresentam os efeitos colaterais dos medicamentos porque são comercializados como "naturais" e podem ser comprados sem prescrição. Essa idéia errônea é potencialmente perigosa porque as ervas, assim como medicamentos, podem ter efeitos adversos. O risco de efeitos colaterais aumenta ainda mais quando determinadas ervas são combinadas com drogas vendidas com ou sem prescrição médica. Os profissionais da saúde devem incentivar os indivíduos a relatarem os nomes das ervas que usam. Até sete de dez usuários de ervas medicinais nunca dizem a seus médicos que produtos à base de ervas estão tomando. Limita-se a capacidade dos médicos em diagnosticar e tratar corretamente uma doença ou problema quando esses desconhecem que o paciente faz uso de produtos desse tipo. Além disso, as pessoas devem ser orientadas sobre o uso adequado de ervas e sobre quando relatar um problema a seus médicos. É preocupante o número de produtos que estão sendo comercializados como bebidas energéticas e que contêm várias ervas, cafeína e ephedra. O consumo dessas bebidas pode, não apenas resultar em teste antidoping positivo em um atleta que participa de competições universitárias ou internacionais, mas também existe o risco de efeitos colaterais adversos e de interações negativas entre os compostos. Acredita-se firmemente que, provavelmente, muitos dos remédios tradicionais à base de ervas oferecem alguns benefícios leves para a saúde e o desempenho, mas esses efeitos são mínimos em comparação com aqueles obtidos com drogas modernas. Embora permaneça cético, parece haver alguma evidência de que a equinácea consegue estimular o sistema imunológico e ajudar no tratamento - mas não na prevenção - de resfriados, gripe e infecções do aparelho respiratório superior.



Texto adaptado de: Sport Science Exchange Roundtable 50. Volume 13 (2002) nº4 - Suplementos à base de ervas e desempenho nos esportes


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